Texto crítico – “O Mar que os une”
Edson Mardine
Por toda a história, assistimos a vidas que compuseram potentes obras. A arte sobrevive a diferentes formações, a mãos, olhares, espíritos de tempo. Hoje, encontramos olhares que se mostram cada vez mais atentos a identidades que incorporaram, sobretudo, a ideia de liberdade como força da alma do artista.
Deparamo-nos com a obra de Edson Mardine, artista que iniciou sua carreira no campo dos empreendimentos, sem perder de vista o interesse pelo universo da arte. Ao longo de seus 80 anos, colecionou diversas viagens pelo mundo e, com seu olhar atento, construiu um vasto capital cultural. Na busca por uma experiência com a visualidade, alimentou sua presença em acervos de museus de países pelos quais andou e suas culturas.
O interesse pelas artes o transformou em um colecionador que vem adquirindo obras importantes da nossa história ao longo de seis décadas. Em termos curatoriais, seu olhar artístico para composição de acervo é fascinante: sua coleção é plural e extensa, exibindo o diálogo forte entre as obras que, juntas, assumem um sentido poderoso. Neste acervo, encontramos autorias que exibem trabalhos conectados a uma plasticidade figurativa incorporada de noções das modernidades que eclodiram ao longo de diferentes períodos, tais como Anita Malfatti, Portinari, Di Cavalcanti, Lasar Segall, ou de artistas que fluíram por uma perspectiva mais abstrata, como Burle Marx.
Percebemos como a conexão com o mundo dos leilões e o exercício de pensar uma coleção atuaram na consolidação do olhar do artista em sentidos mais amplos, funcionando como uma espécie de formação do olhar. Elemento percebido nas conexões que sua produção apresenta com tradições de representação. Mardine se transforma em um colecionador plástico, mas não só: coleciona também experiências de vida e memória, uma árvore genealógica permeada de diálogos com culturas distintas, compondo uma identidade artística consistente.
Em termos estéticos, notamos em seu trabalho o apreço por uma pincelada forte que se desenvolve de modo alongado ou breve, culminando numa força vigorosa da ação em tela. Este elemento iconográfico nos aponta movimentos que se inserem em tradições mais abstratas, sem, no entanto, se distanciar de uma ideia de composição muito presente nas pinturas de artistas que nascem de uma formação acadêmica e se dedicam ao gênero de representações de paisagem, por exemplo. Essa combinação de perspectivas e influências remonta a um diálogo entre o mundo figurativo e o abstrato.
É importante destacar essa força como o elemento que nos guia e conduz nosso olhar por sua extensa produção; por mais que sua obra apresente uma pincelada mais solta, não é a geometria que sustenta a sua pintura, e sim a fluência do nascimento das formas. Nesse ponto, não podemos perder de vista como o pensamento construído enquanto colecionador reflete em suas obras de arte, reafirmando a ideia de aproximação do espaço entre dois mundos: o tangível e o sensível.
As obras que exibem abstrações azuis, quando colocadas juntas, refletem um grupo poderoso de telas que apontam para significados sólidos e pensam a força da tradição de pintores que vieram antes dele – e, mais uma vez, notamos a força da influência das modernidades. Na acrílica sobre a tela, a mistura do azul vai ganhando gradações intensas e variadas que, ao se fundir a tons mais claros e escuros, encontram verdes ou, ainda, outras feições cromáticas, ultrapassando a racionalidade que ganha significado inserida na ideia de certa frieza emitida pelo tom azul. Os sentidos reverberam e invadem um universo mais etéreo e espiritual que é apresentado por meio das cores artificiais, aludindo a mundos imaginados, ao mundo dos sonhos e dos símbolos que beira a significações de uma mística, transformando formas visivelmente abstratas em sentidos capazes de ultrapassar o mundo do que pode ser visto.
Chegamos ao território fértil da abstração e sua capacidade de representar o invisível, de tangenciar o mundo sensível, de ultrapassar tudo o que pode ser visto e nos colocar diante da ideia cuja forma possível de expressão, muitas vezes, não pode ser encontrada no campo das palavras. Estamos falando de sentimentos vislumbrados em tela. A pincelada que desliza sobre a tela toca outra pincelada que a sobrepõe e forma, nesse movimento, um emaranhado de sentidos que fluem e impactam à maneira como respiramos ou sutilmente nos portamos diante da imagem. Todas essas pequenas sutilezas são atravessadas em nosso corpo.
Aqui evoco Arthur Rimbaud, que nos lembra: “Il s’agit d’arriver à l’inconnu par le dérèglement de tous les sens”. O poeta simbolista francês nos comunica, por meio de seu pensamento filosófico e, por que não, psicanalítico, aquilo que a arte clama por dizer; traduzindo: trata-se, portanto, de atingir o desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos.
E, nesse mar de pinceladas desregradas, formatamos, enquanto observadores, figurações construídas a partir da nossa capacidade individual de dialogar com as cenas, ou melhor, com as pinceladas, ou melhor ainda, com a representação do mar. Nosso olhar armado de uma subjetividade própria captura a ideia de furor e movimento; da ação; da correnteza do mar, capaz de conduzir corpos, ou dos céus e seus mistérios… vá saber. A aproximação dessas duas produções plásticas conecta não somente pinceladas, mas, sobretudo, aproxima os cursos de duas vidas.
Mardine Júnior
Até o início dos anos 60, as obras de arte pertenciam a basicamente duas categorias: pintura e escultura. Michael Archer aponta que, durante essa década, outros formatos desafiavam esse “duopólio”; na atualidade, é possível perceber como essas práticas exerceram força sobre o universo das formas, levando a expressão artística contemporânea a um espectro amplo.
O pensamento artístico de Mardine Júnior nasce da amplitude desse mar de influências contemporâneas que se tornaram solo fértil da consolidação de um gosto que o acompanha por diferentes fases da vida. Na infância, já se aventurava pelo campo da abstração e construía um universo lúdico próprio por meio de experimentações plásticas de formas abstratas. No início da fase adulta, flertou com o universo da música, sem, no entanto, se desconectar do interesse pelas experiências plásticas.
Como artista plástico,suas produções nascem do interesse por movimentos artísticos que se aprofundaram na abstração e geometrização de formas, como a Bauhaus e suas conexões com a arquitetura. O artista retoma seu contato com a pintura durante a pandemia no ateliê ao lado do pai. Apresentando uma similar força visceral visível em suas pinceladas, no entanto, se dedicando a explorar com mais profundidade o universo da geometrização dos desenhos que apresentam um grafismo forte. Por meio de técnicas mistas e sobretudo, acrílico sobre tela, observamos nesta exposição 10 obras que apresentam um formidável diálogo cromático, perceptível em outras 20 obras do artista que também fazem parte do acervo da galeria.
Exposições individuais
Galeria Maria de Lourdes Mendes de Almeida – Ipanema RJ (Cândido Mendes) – 19 de janeiro a 28 de abril
Pequena Galeria, Rua da Assembléia 10 – Centro RJ (Cândido Mendes) – 15 de março a 15 de junho
Sobre o Shopping Cassino Atlântico
O Cassino Atlântico era um dos cassinos que ficavam na praia de Copacabana. Durante a década de 1930, jogos de bacará, campista, roleta, black jack e carteado atraíam a sociedade carioca e pessoas de outras cidades (do Brasil e do mundo) ao local. O prédio do antigo Cassino Atlântico foi demolido nos anos 1970 para dar lugar ao novo hotel. Muitos momentos históricos foram vividos no Cassino, entre eles, os shows de Carmem Miranda, que era presença certa no local.
O Shopping Cassino Atlântico foi criado há cerca de 40 anos e abriga, em sua maior parte, lojas de antiguidades e galerias de arte, que trazem artistas consagrados no Brasil e no exterior. Passada a pandemia, o local reinventou-se e apostou na diversificação, com restaurantes, coffee shop, eventos em seus corredores, abertos aos hóspedes do hotel e ao público em geral. Sofisticação e conforto, entre o mar e a arte, em um só local, que vai agradar aos mais exigentes!
Instagram: @cassinoatlanticoshopping
Assessoria de Imprensa: Paula Ramagem
Serviço
Exposição: ‘Os Mardines’
Nome dos artistas: Edson Mardine e Edson Mardine Junior
Curadoria: Luiz Antonelli
Apresentação critica: Brenda Martins
Coordenação técnica: Beth Padula
Coordenação de Acervo: Jéssica Matta
Fotografia e marketing: Estação Criativa
Assessoria de Imprensa: Paula Ramagem
Data de abertura: 16 de junho a partir das 17h
Data de visitação: 17 de junho a 15 de julho de 2023
Local: Galeria E.Mardine Arte (loja 309) e corredores – 3º piso
Instagram: https://www.instagram.com/emardinearte/
Site: https://emardinearte.com.br/
Shopping Cassino Atlântico – Av. Atlântica, 4.240 – Copacabana, RJ
De segunda a sexta, das 9h às 18h e sábado das 9h às 17h.