
Há algo que parece ter acabado de acontecer nas pinturas da artista Talita Hoffmann. Objetos e fragmentos arquitetônicos se acumulam em paisagens nas quais o movimento sugere uma interrupção no instante seguinte a uma explosão. Não há pessoas, mas os sinais de sua passagem estão por toda parte.
É a partir dessa atmosfera que se constrói Mil maneiras de matar o tempo, nova exposição da Piccola Galleria da Casa Fiat de Cultura, com entrada gratuita. A mostra reúne nove pinturas produzidas entre 2024 e 2026 e dá continuidade à pesquisa da artista gaúcha sobre paisagens urbanas e os modos como percebemos e construímos imagens.
Talita Hoffmann se interessa especialmente por espaços abandonados, lugares em transformação nos quais a figura humana desapareceu, embora permaneçam indícios de que alguém esteve ali. “A paisagem está sempre mudando. É como areia movediça, uma paisagem sendo engolida e formando outra. Há um vestígio humano, mesmo com a ausência da figura humana. Parece que existe um movimento pausado”, explica a artista.
Essa percepção se relaciona diretamente com o título da exposição, retirado de uma passagem de Um homem que dorme, de Georges Perec, livro que impressionou Talita pela maneira como aborda a renúncia à vida e o esvaziamento de significado das coisas.
A expressão “matar o tempo” passou a provocar outras questões em sua produção recente, sobretudo diante da velocidade com que consumimos imagens atualmente. Nas pinturas, essa sensação encontra correspondência em temporalidades que parecem se sobrepor e em imagens que conservam vestígios de momentos distintos.
As paisagens não reproduzem lugares específicos. A artista parte de um banco de referências formado por fotografias feitas por ela, imagens encontradas na internet e frames de filmes. Desse repertório, seleciona formas e reorganiza fragmentos até construir uma nova cena.
Sua formação em Design Gráfico também aparece nesse processo, que incorpora recursos do desenho arquitetônico e elementos da comunicação visual cotidiana. Mesmo diante de cenários que carregam certa desolação, as escolhas cromáticas atraem o olhar e conferem às pinturas uma presença pop.
“A cor ajuda a atrair o olhar. Embora as paisagens tenham algo de desolado, ela traz uma dimensão mais pop e cria certa familiaridade com as imagens”, conta Talita.
Nos trabalhos mais recentes, a artista também passou a utilizar a tinta acrílica diluída, buscando se afastar da imagem excessivamente plana que marcou momentos anteriores de sua produção.
Serviço
Visitação: 06/10/26 à 22/11/26 | Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, Sexta-feira das 10:00h às 21:00h
Sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h Casa Fiat de Cultura - Praça da Liberdade, 10 – Funcionários – Belo Horizonte/MG casafiatdecultura.com.br
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