Filho de Tim Maia recebe Medalha Leila Diniz em Niterói na estreia do musical na cidade

Homenagem a Carmelo Maia foi entregue pelo prefeito Rodrigo Neves

A noite desta quinta-feira (16) foi marcada por emoção e memória afetiva em Niterói. O prefeito Rodrigo Neves entregou a Medalha Leila Diniz a Carmelo Maia, filho de Tim Maia, em cerimônia realizada no intervalo do espetáculo “Tim Maia – Vale Tudo – O Musical”, no Teatro Municipal de Niterói.

“Celebrar Carmelo Maia é também reverenciar a história de Tim Maia e de tantos artistas que moldaram a música brasileira. Nomes como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Elis Regina e Jorge Ben Jor fazem parte de uma geração que atravessa o tempo e continua influenciando novas gerações. Niterói tem orgulho de reconhecer esse legado e de ser palco de iniciativas culturais que mantêm viva a nossa memória artística”, afirmou Rodrigo Neves.

A homenagem foi proposta pelo vereador Rodrigo Farah. “Tim Maia – Vale Tudo – O Musical” fica em cartaz na cidade até o dia 19 de abril.

“É um reencontro para celebrar a vida desse gênio — não com tristeza, mas com história e música. Depois de 28 anos, voltar a Niterói tem um significado muito especial. Foi aqui que meu pai foi acolhido e atendido no Hospital Antônio Pedro. Rever essa história agora, no palco, em uma cidade que acompanhou tudo tão de perto, é muito emocionante. Sou profundamente grato a Niterói, à equipe do Teatro Municipal e a todos que fizeram parte dessa trajetória. Essa homenagem faz reviver uma memória que ganha hoje um novo significado”, disse Carmelo, emocionado.

Tim Maia morreu em 15 de março de 1998, aos 55 anos, no Hospital Universitário Antônio Pedro, no Centro de Niterói. Ele havia passado mal após uma apresentação no Teatro Municipal de Niterói e foi internado com quadro grave de infecção generalizada e problemas respiratórios. Sua morte causou grande comoção no Brasil, consolidando ainda mais seu legado como um dos maiores nomes da música brasileira.

Criada pela Câmara Municipal de Niterói, a Medalha Leila Diniz reconhece profissionais das artes cênicas que se destacam em áreas como direção, autoria, roteiro, iluminação e interpretação, em referência ao legado da atriz Leila Diniz.

Espetáculo – A montagem percorre a trajetória de Tim Maia, desde a juventude no Rio de Janeiro até a consagração como um dos maiores nomes da música brasileira. Baseada no livro de Nelson Motta e com curadoria de Carmelo Maia, a peça revisita histórias, encontros e a personalidade única do artista, passando por amizades com nomes como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Elis Regina e Jorge Ben Jor.

Foto: Claudio Fernandes

Marina Ruy Barbosa visita SP-Arte com roteiro exclusivo desenvolvido pela Daslu  

Atriz visitou a 22ª edição da feira no Pavilhão da Bienal, em São Paulo, com programação elaborada por Daniela Séve Duvivier, curadora de Artes da Daslu

Com um roteiro exclusivo desenvolvido pela Daslu, Marina Ruy Barbosa, primeira moradora do Daslu Residences e embaixadora da marca, visitou a 22ª edição da SP-Arte, realizada no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. A programação, elaborada pela curadora de Artes da Daslu, Daniela Séve Duvivier, incluiu passagem pelas principais galerias em exposição na feira, a partir de uma perspectiva única que uniu a essência de sofisticação e refinamento da marca.

“A SP-Arte é um espaço muito importante para quem acompanha a cena artística. Ter a oportunidade de visitar a feira a partir de uma curadoria tão cuidadosa como a da Daslu torna a experiência ainda mais interessante, porque permite um olhar mais atento para as obras e para os artistas presentes”, afirmou Marina Ruy Barbosa.

Entre os destaques do itinerário, ela teve a oportunidade de conhecer trabalhos apresentados por galerias como Almeida & Dale, Flexa, Steiner, Ipanema, Carbono, Nara Roesler, Continua, Luciana Brito, Fortes D’Aloia & Gabriel, Mendes Wood DM e Inox, além de obras de artistas como Anish Kapoor, Damien Hirst, Beatriz Milhazes, Adriana Varejão, Alfredo Volpi, Jesús Rafael Soto, Julio Le Parc, Ivan Navarro e outros nomes da arte contemporânea e moderna.

“Veludo” investiga o tecido como linguagem e campo simbólico

Entre tecidos, pelúcias, camuflagens e figurinos, exposição curada por Ulisses Carrilho transforma o vestir em campo de disputa entre desejo, identidade e poder

A Anita Schwartz Galeria de Arte, na Gávea recebe até 25 de abril a exposição “Veludo”, com curadoria de Ulisses Carrilho, em curta temporada até 25 de abril. Reunindo artistas de diferentes gerações, a mostra toma o tecido como ponto de partida para uma investigação sobre as dimensões simbólica, tátil e social dos objetos em sua relação com o corpo.

Estruturada a partir de um olhar atento às superfícies, a exposição se volta a texturas, dobras e opacidades entendidas não apenas como qualidades materiais, mas como instâncias de mediação entre o corpo e o mundo. Ao evocar o veludo, historicamente associado ao luxo e à intimidade, o projeto articula aparência e experiência, visibilidade e contato, ornamento e estrutura. A abertura acontece simultaneamente ao retorno do Rio Fashion Week à cidade, após uma década, situando a mostra em diálogo direto com o universo da moda.

“Veludo parte do tecido como uma zona de contato entre corpo e mundo. Interessa pensar a superfície menos como aparência do que como instância de mediação, na qual se inscrevem relações de desejo, poder e pertencimento. Ao aproximar práticas que atravessam arte, moda e teatro, a exposição propõe olhar o vestir como linguagem, construção social e forma contínua de performar identidades”, afirma Ulisses Carrilho.

De uma cortina monumental que ocupa o espaço como paisagem sensível a fotografias impressas sobre pano, evocando o corpo como imagem em transformação, “Veludo” constrói um percurso em que matéria e visualidade se confundem. Obras que incorporam costura, vestuário e diferentes tratamentos de suporte convivem com pinturas, objetos e experimentações que tensionam textura e aparência, aproximando arte e moda sem hierarquias.

Ao longo do trajeto, o visitante encontra tanto a delicadeza tátil de superfícies trabalhadas quanto a presença incisiva de peças que acionam memória, desejo e identidade, fazendo do vestir uma linguagem atravessada por códigos sociais e afetivos.

A mostra também se expande para o campo da indumentária e do corpo como suporte. As peças de Isabela Capeto e os trabalhos de Luccas Morais (Lady Letal), com fotografias impressas em tecido sintético, aproximam criação artística e vestuário; enquanto Jeane Terra apresenta obras que associam costura, matéria orgânica e território, como em “Manto Corpo-Território”. Nesse contexto, destaca-se ainda o autorretrato de Lívia Melzi, artista paulistana radicada em Paris, apresentado em sua exposição individual no Palais de Tokyo, em 2022. A fotografia ganhou projeção internacional ao ser destacada em veículos como o jornal Le Monde e a revista francesa Paris Photo. Em outro registro, Marcos Chaves insere no percurso uma bolsa de veludo, deslocando o objeto cotidiano para um plano de leitura simbólica; enquanto Nuno Ramos incorpora pelúcia e materiais diversos em trabalhos que articulam densidade, volume e revestimento.

Ao lado dessas investigações, a presença de artistas como Abraham Palatnik, com seus objetos cinéticos, e Djanira, com cenas de trabalho inscritas sobre suportes sensíveis como o papel camurça, amplia o arco histórico da exposição, conectando maneiras distintas de pensar matéria, imagem e experiência. Trabalhos contemporâneos, como os de Rafa Bqueer e Brendon Reis, introduzem ainda discussões sobre performance, fabulação identitária e construção da imagem.

Um terceiro eixo da exposição se desdobra a partir da figura de Veludo, personagem de “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos, que introduz o teatro marginal como chave de leitura para a inscrição social do corpo. A personagem, atravessada por violência, desejo e precariedade, tensiona as fronteiras entre identidade e sobrevivência, colocando em cena uma subjetividade que se performa sob condições extremas. Ao mobilizar essa referência, em continuidade a investigações curatoriais anteriores, Carrilho aciona o teatro como dispositivo crítico, no qual figurino, pele e gesto se tornam indissociáveis, revelando o vestir como dramatização contínua de papéis sociais e afetivos.

Participam da exposição Abraham Palatnik, Agrippina Manhattan, Álvaro Seixas, Anna Bella Geiger, Antonio Manuel, Brendon Reis, Breno de Sant’ana, Djanira, Caroline Valansi, Duda Moraes, Isabela Capeto, Jeane Terra, Gabriela Machado, Katia Maciel, Lívia Melzi, Luccas Morais (Lady Letal), Luciano Figueiredo, Luiz Eduardo Rayol, Marcos Chaves, Melissa de Oliveira, Monique Ribeiro, Nuno Ramos, Rafa Bqueer, Rafael Alonso, Rafael Amorim, Renato Bezerra de Mello, Thix, Yolanda Freyre e Weslley Ferreira.

Sobre a Anita Schwartz Galeria de Arte
Há quase 30 anos, a Anita Schwartz Galeria de Arte atua de forma contínua no campo da arte contemporânea brasileira, com contribuição consistente para a circulação, a institucionalização e a consolidação da produção artística nacional. Ao longo de sua trajetória, a galeria participou de relevantes feiras nacionais e internacionais, estabelecendo interlocuções duradouras com diferentes agentes e contextos do circuito da arte.

Fundada em 1998, no Rio de Janeiro, a galeria passou a ocupar, em 2008, sua sede atual no bairro da Gávea, um dos principais polos culturais da cidade. O edifício, com aproximadamente 700 metros quadrados distribuídos em três pavimentos e projeto arquitetônico assinado pelo escritório Cadas Arquitetura, consolidou-se como a primeira galeria carioca concebida segundo o conceito de cubo branco, projetada especificamente para a realização de exposições de arte contemporânea.

A Anita Schwartz Galeria de Arte representa artistas consagrados, nomes historicamente relevantes da arte contemporânea brasileira e expoentes da nova geração. Seu espaço expositivo viabiliza a realização de exposições, instalações e projetos especiais, reafirmando sua atuação no circuito institucional e no mercado de arte, em diálogo contínuo com museus, curadores e colecionadores.

SERVIÇO
VELUDO | Curadoria: Ulisses Carrilho

Abertura: 14 de abril de 2026, às 19h
Encerramento: 25 de abril de 2026

Anita Schwartz Galeria de Arte
R. José Roberto Macedo Soares, 30 – Gávea
Rio de Janeiro | RJ
Tel: (21) 2540-6446 | (21) 99603-0435

Website: www.anitaschwartz.com.br
Instagram: @galeria_anitaschwartz

Visitação: segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 12h às 18h

Sociedade Fluminense de Fotografia recebe jornalista Pinheiro Junior para lançamento de novo livro

Aos 91 anos, o jornalista e escritor Pinheiro Junior lança o livro “Fantasmas Baldios”, uma narrativa erótica permeada por crenças, crendices e tragédias que atravessam o universo caótico da família humana. O lançamento acontece no dia 25 de abril, às 15h, na Sociedade Fluminense de Fotografia, na Rua Dr. Celestino, 115, no Centro de Niterói.

Com foto de capa exclusiva assinada pelo fotógrafo Léo Pinheiro, a obra traz a imagem de uma famosa escultura de beijo exposta no Museu Rodin, em Paris. No romance, o leitor é conduzido por um terreno baldio e por um exótico e misterioso casarão, cenários que podem ser entendidos como metáforas do turbulento habitat humano. Entre tragédias encenadas nesse terreno-teatro e murmúrios de comédia soprados por uma plateia inquieta, uma história se destaca e segue até o cemitério, onde se dissolve em cinzas e comentários exaltados.

Embora o desfecho de “Fantasmas Baldios” não seja exatamente um happy end, o romance mantém a temperatura intensa que marca a narrativa de Pinheiro Junior. “A pandemia da Covid me surpreendeu com ‘Fantasmas Baldios’ pela metade. Quase abandonei o projeto, absorvido por afazeres pretensamente mais importantes. Nada, porém, é mais importante do que um romance inspirado ou fruto de pesquisas já realizadas. Retomei o ‘Fantasmas Baldios’, que se afogava entre anotações”, afirma o autor.

Pinheiro Junior é uma referência nacional no jornalismo e na literatura. Iniciou a carreira aos 18 anos, ao lado de Samuel Wainer, com a série de reportagens “Juventude Transviada”, publicada em 1955, sobre jovens da Zona Sul do Rio de Janeiro. Ao longo da trajetória, atuou como repórter, cronista, editor e diretor em veículos como Última Hora, O Jornal e O Globo. Também chefiou a redação da TV Globo e gerenciou o jornalismo da TV Rio.

Além de “Fantasmas Baldios”, é autor de obras como “A Febre de Notícias ao Entardecer”, “A Última Hora (como ela era)” e “Bombom Ladrão”, entre outras. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, é membro da Academia Fluminense de Letras.

Serviço
Lançamento de “Fantasmas Baldios”, de Pinheiro Junior
Data: 25 de abril
Horário: 15h
Local: Sociedade Fluminense de Fotografia
Endereço: Rua Dr. Celestino, 115, Centro, Niterói
Páginas: 210
Preço: R$ 60,00
Onde encontrar: livrarias Travessa e Blooks, em Icaraí, Niterói
E-book: disponível na Amazon

Exposição no Galpão das Artes celebra trabalhos feitos por garis e funcionários da Comlurb

O Galpão das Artes, na Gávea, abre as portas para trabalhos e obras variadas de garis e funcionários artistas da Comlurb. A mostra Expo Gari – Arte e limpeza urbana: um caminho para a sustentabilidade vai reunir desde poemas e outras obras literárias até pinturas, esculturas e artesanatos de 17 artistas, sempre com o viés ecológico, feitos, principalmente, com materiais recicláveis ou a partir do reaproveitamento de resíduos. Além de homenagear os trabalhadores da limpeza urbana, a mostra é inspirada no Ano Internacional dos Voluntários para a Sustentabilidade e Um Mundo Melhor, da Organização das Nações Unidas (ONU), celebrado este ano.

A exposição é gratuita e estará aberta ao público até 20 de maio. Na abertura do evento, que vai das 11h às 16h, haverá apresentações de trabalhos dos garis escritores e poetas Valdeci Boareto, Bruna Maria Gomes e Maria das Graças Pimenta Ribeiro. O gari e ator Jersiano Vieira, que tem vários papéis de destaques no teatro, TV e cinema, também fará uma esquete de conscientização para o público do evento. Já Derlan Matos, que usa a arte para revitalizar áreas críticas de descarte irregular e ecopontos, fará uma pintura de paisagem ao vivo para o público presente. O sambista, compositor e cantor Jorginho da Flor, do Império Serrano, acompanhado dos músicos Magal Nascente (Tantan/Voz) e Diogo do Cavaco animarão o evento.

Os garis e funcionários artistas atuam em diferentes setores da Comlurb, desde limpeza de escolas e de hospitais municipais, manejo de árvores, na Oficina de Troncos, Centro de Pesquisa, no Ecoparque do Caju até no próprio Galpão das Artes. Entre as atrações está Murilo Lemos de Souza, que junto com Derlan usa a arte em painéis que enfeitam ecopontos pelo Rio.

O gari Leonardo dos Santos LSP, que leva suas obras em graffiti para vários pontos da cidade e ecopontos, vai expor alguns de seus quadros feitos com reaproveitamento de telas e sobras de tintas. André Luís Moreira Henriques, auxiliar de serviço de laboratório no Centro de Pesquisas, levará suas esculturas e artesanatos feitos com latinhas de alumínio e cascas de árvores, além de pinturas em mdf descartados.

O gari Felipe Matias, que já trabalhou como tatuador, vai mostrar suas obras feitas com aproveitamento de madeira de restos de poda. Isa D´Ávila participa da mostra com os seus pneus transformados em heróis de quadrinhos. Jaime Santos Aramart, soldador na Comlurb, vai apresentar sua Águia construída com reaproveitamento de soldas como pontas de eletrodos, esferas de aço, latas, barras de aço, madeiras e outros materiais.

Serviço:

Exposição: Expo Gari – Arte e Limpeza Urbana: um Caminho para a Sustentabilidade

Visitação: 06/03 a 20/05, sempre nos dias úteis, das 09 h às 16h

Local: Galpão das Artes Urbanas Helio G. Pellegrino / Comlurb

Endereço : Av. Padre Leonel Franca s/nº – Gávea

(sob o Viaduto Lagoa-Barra, em frente ao Planetário da Cidade)

Entrada gratuita

Exposição individual “o (tempo)”, de Waltercio Caldas, chega ao Instituto Casa Roberto Marinho

Com cerca de 100 trabalhos, exposição percorre seis décadas da produção de Waltercio Caldas e apresenta uma leitura de sua trajetória singular, marcada pela investigação sobre tempo, espaço e percepção

Tempo, para Waltercio Caldas, é matéria de trabalho. Essa é a premissa que estrutura o (tempo), exposição que a Casa Roberto Marinho inaugura no dia 14 de maio de 2026, às 18h, reunindo cerca de 100 obras produzidas entre 1967 e 2025 por um dos nomes mais influentes da arte contemporânea brasileira.

As exposições deste artista são sempre acompanhadas de muita expectativa. A começar pelo título, a palavra tempo surge aqui entre parênteses. O sinal gráfico interrompe a fluidez e antecipa a ideia que atravessa a mostra: “Os parênteses indicam algo…”, pontua Waltercio Caldas (1946, Rio de Janeiro). “Eles suspendem o tempo como medida e o apresentam como matéria de linguagem e pensamento.”

Projetada pelo próprio artista, a exposição ocupa os espaços da instituição no Cosme Velho, Zona Sul do Rio, com esculturas, pinturas, desenhos, livros e ambientes que abrangem seis décadas de produção e revelam a consistência de uma pesquisa rigorosa em torno das tensões entre forma, espaço e percepção.

Para Waltercio, a exposição é parte constitutiva da obra e uma etapa a mais de sua realização. A organização das peças no espaço, as distâncias entre elas e o percurso do visitante integram o processo de construção da experiência. “Fazer uma exposição é ainda uma prerrogativa da própria obra”, afirma o artista. “Quando trabalhamos com esculturas e objetos, o espaço passa a ser o material e a mostra se torna radicalmente presencial.”

Quarto Azul (2007) abre o percurso expositivo. Na primeira sala, o ambiente envolve o visitante em um campo de cor atravessado por linhas que reorganizam a percepção do espaço. A partir dessa entrada, trabalhos de diferentes momentos da trajetória de Waltercio passam a conviver em novas articulações, produzindo deslocamentos contínuos do olhar.

Ao reunir peças concebidas em momentos variados, o (tempo) aproxima criações históricas e produções recentes, revelando a continuidade de um pensamento poético que desafia as convenções da forma e do espaço. Entre eles estão obras emblemáticas como Condutores de Percepção (1969), uma das primeiras a explorar a participação ativa do olhar do espectador; e Centro de Razão Primitiva (1970) e As Sete Estrelas do Silêncio (1970), que já indicavam a precisão formal e a dimensão poética que se tornariam marcas recorrentes em sua produção.

Waltercio surgiu no cenário artístico brasileiro no final da década de 1960, em um momento de intensa renovação das artes visuais no país. Em diálogo com artistas e críticos que repensavam os limites da escultura, do objeto e da ideia de obra de arte, seu trabalho integrou a virada que deslocou o foco da representação para a experiência perceptiva e para o questionamento dos meios da arte. Desde então, sua trajetória vem sendo acompanhada por críticos como Paulo Venancio Filho e Paulo Sergio Duarte, que identificam em sua prática uma investigação rigorosa sobre linguagem, percepção e espaço.

Ao longo desse percurso, Waltercio construiu uma produção marcada pela precisão formal e pela economia de elementos, desenvolvendo uma linguagem singular e coerente. Utilizando materiais como aço inoxidável, vidro, espelho, pedra e fios, o artista cria situações em que presença e ausência, transparência e opacidade, peso e leveza se equilibram de maneira delicada. Essa prática, que atravessa toda a sua obra – dos primeiros objetos criados nos anos 1960 às esculturas e ambientes recentes – o consolidou como uma das figuras centrais do pensamento escultórico contemporâneo no Brasil e também no circuito internacional.

Voltadas à experiência do olhar e à materialidade do invisível, suas obras estruturam situações espaciais que convidam o espectador a percorrê-las com atenção, ativando um campo perceptivo no qual cada elemento ganha sentido em relação aos demais. “O que busco é esta tensão que existe entre as coisas que conhecemos e as que não conhecemos”, reflete o artista. “A arte é a invenção de um aparecimento. Ela faz com que as coisas surjam para nós como se fossem capazes de alterar até mesmo as nossas dúvidas.”

Na Casa Roberto Marinho, o (tempo) transforma o deslocamento do visitante em parte essencial da experiência pensada por Waltercio Caldas: “Parece haver uma similaridade entre os períodos, os lugares e as matérias primas”, afirma o artista.

Sobre Waltercio Caldas

Waltercio Caldas nasceu em 1946, no Rio de Janeiro. Escultor, desenhista, artista gráfico e cenógrafo, estudou pintura com Ivan Serpa, em 1964, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio). Entre 1969 e 1975, fez desenhos, objetos e esculturas. Em 1973 sua primeira individual recebeu o prêmio de melhor exposição do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Arte. Nos anos 1970, deu aulas no Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, e foi coeditor da revista Malasartes e do jornal A Parte do Fogo. Integrou a comissão de Planejamento Cultural do MAM Rio, responsável pela criação da Sala Experimental.

É considerado por críticos, curadores e escritores um dos mais importantes artistas do Brasil nos anos que se seguiram ao movimento neoconcreto da década de 1960. Suas obras questionam e investigam a percepção humana, usando com frequência formas que desafiam a sensação de volume e profundidade.

Realizou exposições no Brasil e no exterior e foi agraciado pela Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1993, com o prêmio Mário Pedrosa, pelo conjunto da obra e por sua mostra individual realizada no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Em 1996, lançou a obra O livro Velázquez e, pela primeira vez, apresentou seus cadernos de estudos durante a exposição individual Anotações 1969/1996.

Esteve presente em várias Bienais de São Paulo, na Bienal de Veneza e na Documenta de Kasell (Alemanha). Na Bienal Entre Abierto, em Cuenca, Equador, em 2011, recebeu o prêmio com a obra Parábolas de Superfície. Participou da coletiva Art Unlimited – com a obra What is World. What is Not, em Basileia, Suíça. Em 2005 recebeu o grande prêmio da Bienal da Coreia.

Em 2018, foi um dos sete artistas curadores escolhidos para conceber uma exposição coletiva na 33ª Bienal de Arte de São Paulo, selecionando pinturas, esculturas e textos que tratavam de assuntos relacionados a tempo e espaço.

Em 2021, Waltercio Caldas participou da exposição coletiva A escolha do artista, realizada pela Casa Roberto Marinho. A mostra convidou cinco artistas a selecionar obras do acervo da instituição e estabelecer com elas um diálogo poético por meio de proposições autorais, criando novas relações entre trabalhos históricos da Coleção Roberto Marinho e produções contemporâneas.

Seus trabalhos estão em coleções de importantes instituições, como o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), o Museu Reina Sofia (Espanha), o Centro Georges Pompidou (França), o Museu de Arte (MASP), a Pinacoteca do Estado e o Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Sobre a Casa Roberto Marinho

A Casa Roberto Marinho foi aberta ao público como instituto cultural sem fins lucrativos em 28 de abril de 2018, no Cosme Velho, Zona Sul do Rio de Janeiro. A instituição foi integralmente criada com recursos próprios da família, de forma independente, sem qualquer incentivo ou uso de lei de isenção fiscal. Concebida para promover o conhecimento através da arte e da educação, tornou-se um centro ativo de referência em arte brasileira, sob a direção do arquiteto, antropólogo e curador Lauro Cavalcanti.

O acervo reunido ao longo de seis décadas pelo jornalista Roberto Marinho (1904-2003) é especializado em modernismo brasileiro dos anos 1930 e 1940, e abstração informal da década de 1950. O belo conjunto de cerca de 1.400 peças cadastradas – entre pinturas, esculturas, gravuras, objetos e desenhos – também recebeu trabalhos de estrangeiros, como Marc Chagall (1887-1985) e Salvador Dali (1904-1989).

Com mais de 1.200m² de área expositiva, o projeto conta com sala de cinema, além de cafeteria e livraria especializada em publicações de arte. O jardim, originalmente projetado por Burle Marx com espécies da flora tropical, é um prolongamento da Floresta da Tijuca.

SERVIÇO
o (tempo), de Waltercio Caldas

Abertura: 14 de maio de 2026, às 18h
Encerramento: 27 de setembro de 2026

Local: Instituto Casa Roberto Marinho
End: Rua Cosme Velho, nº 1105
Rio de Janeiro | RJ

Tel: (21) 3298-9449

Visitação: terça a domingo, das 12h às 18h
(Aos sábados, domingos e feriados, a Casa Roberto Marinho abre a área verde e a cafeteria a partir das 9h.)

Ingressos à venda exclusivamente na bilheteria:
R$ 10 (inteira) / R$ 5 (meia entrada)
Às quartas-feiras, a entrada é franca para todos os públicos.
Aos domingos, “ingresso família” a R$10 para grupos de quatro pessoas.

A Casa Roberto Marinho respeita todas as gratuidades previstas por lei e é acessível a pessoas com deficiência física.

Estacionamento gratuito para visitantes, em frente ao local, com capacidade para 30 carros.

Exposição imersiva sobre a crise climática ocupa o Futuros – Arte e Tecnologia

O Futuros – Arte e Tecnologia recebe a exposição “Mudamos o Clima, Agora o Clima Muda Tudo”, uma experiência imersiva idealizada pelo Projeto Coral Vivo. Gratuita e com classificação livre, a mostra ocupa a Galeria 2 até 26 de abril, convidando o público a um mergulho sensorial nos impactos da crise climática e nos caminhos possíveis para enfrentá-la.

Após atrair mais de 35 mil visitantes em sua edição anterior, realizada em Belém durante a COP30, a exposição chega ao Rio de Janeiro pela primeira vez. A itinerância segue, posteriormente, para Bahia e São Paulo.

Com mais de 150 m² de instalações, o percurso combina vídeos, esculturas, experiências em realidade virtual, painéis interativos e uma estufa com 500 mudas nativas. A proposta é dialogar com diferentes faixas etárias, transformando dados científicos em vivências que aproximam o visitante dos efeitos concretos das mudanças climáticas sobre oceanos, cidades e ecossistemas terrestres.

Arte e ciência como linguagem comum

A narrativa expositiva se estrutura em três momentos. Logo na entrada, uma instalação audiovisual apresenta eventos extremos agravados pelas mudanças climáticas, preparando emocionalmente o público para o percurso. Em seguida, conceitos como efeito estufa, aquecimento global e eventos climáticos extremos são apresentados por meio de gráficos, projeções e conteúdos multimídia.

Ao longo da visita, instalações abordam emissões de gases de efeito estufa, desmatamento, consumo insustentável e justiça climática. Elementos cenográficos, como boias suspensas e grafismos que remetem a situações de emergência, evocam a ideia de alerta e reforçam as desigualdades entre países que mais emitem gases poluentes e aqueles mais vulneráveis aos seus impactos.

Na etapa final, a exposição aponta soluções possíveis, destacando iniciativas de restauração ecológica, transição energética e participação cidadã. Um mapa-múndi coberto por musgo vivo simboliza a capacidade de regeneração do planeta, enquanto a estufa convida o visitante a refletir sobre a importância de ações concretas no cotidiano.

“O Futuros – Arte e Tecnologia tem como propósito mobilizar, por meio da arte, reflexões críticas sobre os desafios contemporâneos. A exposição do Projeto Coral Vivo une arte e consciência socioambiental ao refletir sobre os efeitos das ações humanas na crise climática e possíveis caminhos de transformação”, destaca o gerente de cultura do Instituto Futuros, Victor D’Almeida.

Contexto científico e urgência ambiental

A chegada da mostra ao Rio dialoga com dados recentes sobre o avanço da crise climática no Brasil. O mais abrangente estudo já realizado sobre branqueamento de corais no país, coordenado pelo Projeto Coral Vivo e publicado na revista científica Coral Reefs, revelou que 36% dos corais monitorados apresentaram algum grau de branqueamento em 2024. Em Maragogi (AL), os índices chegaram a 96%, com 88% de mortalidade registrada.

Espécies estruturais, como o coral-de-fogo (Millepora alcicornis) e o coral-vela (Mussismilia harttii), foram particularmente afetadas, comprometendo a biodiversidade marinha e a renda de comunidades costeiras que dependem da pesca e do turismo.

Cidade costeira e marcada por eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, o Rio de Janeiro torna-se cenário estratégico para ampliar o debate público sobre a emergência climática. Ao unir arte, tecnologia e pesquisa científica, a exposição propõe não apenas informar, mas mobilizar.

Compromisso com futuros sustentáveis

Para o gerente de cultura do Instituto Futuros, Victor D’Almeida, receber a mostra reforça o propósito institucional do centro cultural de estimular reflexões críticas sobre desafios contemporâneos. Ao integrar arte e ciência, o Futuros amplia o diálogo com diferentes públicos e reafirma seu compromisso com a construção de futuros mais sustentáveis, equitativos e socialmente responsáveis.

“Esta exposição combina ciência e arte como forma de transmitir a todos o que é a emergência climática e suas consequências, buscando despertar uma reflexão sobre a responsabilidade de cada um como parte da solução”, afirma Gregório Araújo, gerente de Projetos Ambientais da Petrobras.

A exposição é realizada pelo Projeto Coral Vivo em parceria com as redes Biomar e REDAGUA, com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. A direção de arte, expografia e comunicação visual são assinadas pelo Estúdio Bijari.

A curadoria foi desenvolvida em parceria entre o Instituto Coral Vivo e representantes do Departamento de Oceano e Gestão Costeira (DOCEANO/MMA), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE/MCTI), do Instituto Oceanográfico (IO/USP), da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI/UERJ), do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca da Amazônia (NEAP/UFPA) e do Instituto Meros do Brasil.

Mudamos o Clima, Agora o Clima Muda Tudo
Galeria 2 – Futuros – Arte e Tecnologia
De quarta a domingo, das 11h às 20h
Entrada Gratuita
Classificação Livre

Para agendamento de monitoria: programaeducativo@futuros.org.br

Novo filme de Guilherme Araponga, “Encontro e Despedida”, inicia gravações em Belo Horizonte

A partir do dia 18 de abril, Belo Horizonte recebe as gravações de Encontro e Despedida, novo filme escrito e dirigido por Guilherme Araponga. Inspirada em uma história real vivida na capital mineira, a produção tem no elenco José de Abreu, Bernardo Filaretti, Luiza Filaretti e Eda Costa, e tem pré-estreia prevista para o segundo semestre de 2026. O filme conta com realização da Filaretti Produções, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Rouanet) e patrocínio master da Gasmig.

Com narrativa centrada no reencontro entre pai e filho após anos de afastamento, o roteiro acompanha estes dois personagens em um leito de hospital, no momento final da vida do pai. A partir dessa situação limite, o filme se debruça sobre temas como abandono afetivo, relações familiares e os atravessamentos emocionais que emergem quando não há mais tempo para reorganizar o passado.

“O cinema que me interessa nasce muito mais do que não é dito do que do que é falado. Em Encontro e Despedida, o silêncio tem peso. Ele atravessa o quarto, preenche os intervalos, está entre pai e filho o tempo inteiro. O filme não tenta fechar feridas que passaram a vida inteira abertas. Ele observa o momento exato em que dois homens, unidos por um abandono que nunca cicatrizou, são obrigados a permanecer um diante do outro até o fim. Sem redenção”, afirma o diretor Guilherme Araponga.

A encenação aposta em um caminho naturalista, com uma câmera que acompanha a ação de forma discreta, quase como uma observadora. O hospital, mais do que cenário, funciona como um espaço de confinamento emocional, onde o tempo se dilata e não há possibilidade de fuga. A escolha pelo formato de imagem 4:3 e pelo preto e branco contribui para essa sensação de proximidade e intensidade, destacando os rostos, os gestos e o desgaste físico e emocional dos personagens.

José de Abreu, que vive o pai, destaca a força do tema e sua conexão pessoal com a história. “Essa relação pai e filho é uma coisa que me interessa muito. Eu perdi um filho quando ele tinha 21 anos e isso deixa uma marca muito grande. O roteiro é extremamente interessante, me pegou, e as conversas com o diretor são sempre muito boas. Estou bastante animado”, conta.

Encontro e Despedida se constrói como uma investigação sensível sobre memória, culpa e herança emocional. “Dirigir esse filme em Minas, com uma equipe majoritariamente mineira, diversa e formada em sua maioria por mulheres, tem um peso simbólico enorme pra mim. Voltar a Belo Horizonte, onde essa história real aconteceu, é quase como fechar um ciclo que ficou aberto dentro de mim. Trabalhar com José de Abreu, Bernardo Filaretti, Luiza Filaretti e Eda Costa é uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, uma honra imensa, porque são atores talentosíssimos dando corpo e voz a algo que foi muito meu”, finaliza o diretor.

Bernardo Filaretti, também mineiro, reflete sobre a profundidade de seu personagem: “Eu tenho buscado histórias que me coloquem em conflito de verdade. Eu gosto de personagens que eu preciso fazer uma pesquisa imensa pra entender o que se passa dentro dele, descobrir os porquês, investigar minha vida e meus sentimentos. Além disso, ter José de Abreu como meu pai no cinema é um privilégio enorme. Me sinto muito alimentado”, comenta.

A locação escolhida é o Hospital São Rafael, em Belo Horizonte, que dará ainda mais veracidade ao filme.

Ficha técnica:
Autor e diretor: Guilherme Araponga
Elenco: Bernardo Filaretti, José de Abreu, Luiza Filaretti, Eda Costa
Realização: Filaretti Produções via Lei Rouanet, com patrocínio master Gasmig
Estreia: segundo semestre 2026

Sinopse: após anos de silêncio e afastamento, um filho reencontra o pai em um leito de hospital, à beira da morte. Enquanto o pai é forçado a abandonar o orgulho para depender do filho em suas funções mais básicas, o jovem enfrenta o paradoxo brutal de cuidar de quem um dia o abandonou.

Exposição “Aonde eu queria estar”, de Marjô Mizumoto, na Gávea

A Galeria Anita Schwartz inaugura a exposição Aonde eu queria estar, de Marjô Mizumoto. A mostra reúne dez pinturas em grande formato — com telas que chegam a 2,5 metros de altura — e marca o primeiro solo da artista paulistana no Rio de Janeiro.

Formado majoritariamente por trabalhos inéditos concebidos para a individual o conjunto apresenta cenas do cotidiano doméstico, encontros familiares e momentos de lazer que, na pintura de Marjô, ganham densidade emocional e força visual. São imagens construídas a partir de fotografias do dia a dia, reorganizadas em composições que suspendem o tempo e transformam o banal em matéria pictórica.

As pinturas operam a partir de uma contenção do tempo. Ele não avança, se concentra. Pequenos gestos, situações corriqueiras e encontros íntimos são deslocados de sua função cotidiana e passam a ocupar o centro da cena, acentuados por escolhas cromáticas, enquadramentos e elementos simbólicos que ampliam seus sentidos. O resultado são imagens que parecem familiares à primeira vista, mas que, pouco a pouco, instauram um leve estranhamento e convidam o olhar a permanecer.

As cenas não se fecham em um único significado. Sugerem o que veio antes e o que pode vir depois, ativando a memória e a experiência do espectador. Ao reunir referências de diferentes tempos, como infância, vida adulta, memórias pessoais e imagens coletivas, a artista cria composições em que passado e presente coexistem no mesmo plano.

A curadora Vanda Klabin, que assina o texto de apresentação da mostra, destaca que Mizumoto “manipula a linguagem imagética, fortemente figurativa, por meio de dispositivos narrativos, direcionando o olhar para o universo de fragmentos do cotidiano doméstico atuantes em sua órbita poética”. Para Vanda, a artista parte de imagens reconhecíveis da vida comum que, “ao serem inflamadas por uma iconografia pulsante, fazem com que acontecimentos banais ou efêmeros adquiram uma densidade visual inesperada, por vezes tornando estranhas representações outrora familiares”.

A pintura é o território central de Marjô, formada em Artes Plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), desde o início de sua trajetória, em 2008. Ao longo de quase duas décadas de percurso, um eixo permanece constante: o interesse pelas relações humanas. “O que sempre ficou no meu trabalho são as relações. Eu sinto que é algo silencioso, mas uma das coisas mais importantes da vida”, afirma. Se antes sua atenção recaía mais sobre o indivíduo isolado, hoje o foco se desloca para aquilo que acontece entre as pessoas, como o cuidado, a convivência e o tempo compartilhado.

Esse deslocamento se intensifica após a experiência da maternidade, que passa a atravessar de forma decisiva a sua pesquisa pictórica. “Eu comecei a entender minha pintura muito mais a partir das relações do que do indivíduo em si. Aprendi a cuidar e meu olhar foi para esse lugar do cuidado”, comenta a artista. Mesmo quando retrata uma única figura, a cena sugere uma presença fora do quadro, como se o observador também estivesse implicado naquele momento.

Nesse contexto, Aonde eu queria estar pode ser lida a partir de um deslocamento crítico da representação da maternidade. Em vez de reiterar a mulher como figura central e naturalizada do cuidado, Mizumoto redistribui esse papel dentro da cena. Em algumas pinturas, a figura masculina assume gestos de atenção e cuidado doméstico, presença ainda rara na história da arte. Ao mesmo tempo, a artista se ausenta como personagem para ocupar o lugar de quem observa e registra, influenciada por uma memória forte familiar: “Meu pai nunca aparecia nas fotos porque era ele quem fotografava”, relembra. Ao assumir esse ponto de vista, Marjô desloca a maternidade de um lugar idealizado e afirma a possibilidade de a mulher se retirar da cena para existir como olhar e autoria.

Esse gesto de afastamento como personagem se desdobra diretamente no modo como a artista constrói suas imagens. O processo de trabalho envolve a combinação de múltiplas imagens e referências afetivas, reunidas em uma única cena. “Eu tiro muitas fotos durante o dia e depois construo a pintura a partir delas. Não é a reprodução da foto, é uma cena construída, quase como um frame de um filme”, explica Marjô. Essa operação cria um campo aberto à projeção do espectador, que frequentemente reconhece nas imagens fragmentos de sua própria memória.

Segundo Vanda Klabin, “ao remover imagens de sua natureza cotidiana e ampliar seus sentidos por meio de uma narrativa parcial, Marjô interrompe o fluir do tempo e redireciona o observador para novos eixos de leitura e significado”. Nesse processo, o trivial torna-se objeto de investigação plástica e as cenas deixam de ser fugazes para se consolidarem como composições visuais autônomas.

A dimensão relacional atravessa também a escala das obras. Executadas em grandes formatos, as pinturas ampliam a intimidade da cena e a projetam no espaço expositivo, criando uma relação de proximidade física com o público. O que poderia permanecer restrito ao âmbito privado, como a casa, a família, o descanso e a infância, ganha dimensão pública e simbólica.
As obras reunidas em Aonde eu queria estar abordam infância, vida familiar, lazer e trabalho, combinando humor, delicadeza e tensão. Para a artista, a pintura também carrega uma dimensão de permanência: “Eu sinto que a pintura tem esse momento de eternizar. É uma forma de manter vivo um instante que, na vida, passaria muito rápido”.
Anita Schwartz apresenta um conjunto de trabalhos que reafirma a potência da pintura figurativa como espaço de memória, afeto e experiência compartilhada, a partir de um olhar feminino atento às dinâmicas do cuidado e da vida cotidiana.

Serviço
Exposição | Aonde eu queria estar
De 5 de março a 18 de abril
Segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, das 12h às 18h
Local: Anita Schwartz Galeria de Arte
Rua José Roberto Macedo Soares, 30, Gávea, 22470-100, Rio de Janeiro – RJ

Grupo internacional traz instrumentos de época e música renascentista portuguesa ao Teatro da UFF

O Centro de Artes UFF apresenta, no próximo dia 5 de maio, às 19h, um concerto de relevância internacional que une performance artística e rigor acadêmico: “Que he o que vejo?”, projeto financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) de Portugal, que propõe uma imersão na sonoridade da música e da língua portuguesa do século XVI. O espetáculo, que integra a série Música de Câmara, traz diretamente do Porto para Niterói os músicos Ananda Roda, Thiago Vaz, Irene Brigitte e Teodora Tommasi. O grupo apresenta um repertório baseado em profundas pesquisas linguísticas, resgatando a pronúncia histórica do português quinhentista, além do latim e do castelhano da época. A autenticidade sonora é garantida pelo uso de réplicas de instrumentos históricos, que permitem a recriação fiel dos timbres e articulações originais. Como parte da programação, os músicos realizarão uma palestra às 17:30. O encontro é uma oportunidade para que o público conheça detalhes do processo de pesquisa, a construção do repertório e curiosidades sobre a restauração da língua e dos instrumentos antigos. Se você aprecia história, literatura e música de qualidade, este é o seu evento!

· Evento: Concerto “Que he o que vejo?” (Série Música de Câmara)

· Data: 5 de maio (terça-feira)

· Palestra (17:30): Que he o que vejo? – variedade linguística dos cancioneiros portugueses, por Irene Brigitte

· Início do concerto: 19h

· Local: Teatro da UFF – Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói.

· Ingressos: R$20 e R$10 (meia). Preço único promocional: R$ 10. As vendas podem ser realizadas pelo site ingressosuff.com.br ou na bilheteria do Teatro da UFF