Até 9 de maio, a Portas Vilaseca apresenta “Manejo”, nova individual do artista Mano Penalva, com texto crítico do curador e historiador da arte Renato Menezes. A mostra reúne um conjunto de objetos, esculturas, instalações e ready-mades que investigam as relações entre técnica, cultura popular, alimentação, linguagem e economia cotidiana no Brasil.
O nome da exposição origina-se da instalação que ocupa o terceiro andar da galeria. Intitulada “Manejo”, a obra é composta por sessenta caixas de feira pintadas, empilhadas como totens, evocando a ideia de manejo como prática que combina repetição, experiência e intuição. Ao organizar esses engradados — objetos cotidianos de circulação e transporte — Mano Penalva transforma um elemento ordinário em suporte para uma leitura simbólica do Brasil, como se recompusesse o país a partir de seus materiais mais comuns.
Nas ripas das caixas surgem pares de nomes pintados em cores vibrantes — José/Macaxeira, João/Maniva, Silva/Aipim, Santos/Mandioca — aproximando duas linhagens fundamentais da cultura brasileira: de um lado, nomes e sobrenomes amplamente difundidos na população; de outro, os diferentes nomes da Manihot esculenta, raiz ancestral cultivada há milênios e base alimentar em várias regiões do país. Ao cruzar nomes humanos e nomes vegetais, a obra conecta alimento, linguagem e identidade cultural, revelando a diversidade de histórias e tradições que atravessam a formação brasileira.
Segundo Menezes, este campo de observação remete à tradição artesanal e dialoga simbolicamente com a figura de Dédalo, artesão responsável pela construção do labirinto que aprisionava o Minotauro. Assim como no mito, as obras de Penalva sugerem que a técnica raramente se desenvolve de maneira direta: ela se constrói em percursos sinuosos, feitos de tentativa, improviso e aprendizado prático.
Entre os demais trabalhos apresentados está “Um tanto e meio” (2020), obra composta por duas latas metálicas de tamanhos diferentes posicionadas sobre uma base de madeira crua. O gesto simples retoma a tradição moderna do ready-made para refletir sobre sistemas informais de medida presentes na linguagem cotidiana. Expressões como “um tanto”, “um pouco” ou “um bocado” aparecem como indicadores flexíveis de quantidade, que substituem a precisão numérica por uma lógica baseada na experiência sensível.
Essa investigação continua em “Dúzia” (2022), instalação formada por prateleiras de madeira e ovos de madeira tingida organizados na parede. Ao deslocar o sentido habitual da palavra “dúzia”, o trabalho transforma um número fixo em um marcador impreciso e contextual, sugerindo formas populares de contagem que escapam à rigidez dos sistemas matemáticos.
A relação entre comida, cultura e linguagem atravessa diversos trabalhos presentes na exposição. Em “Natureza-morta – Jardim sintético” (2016), pratos de barro recebem farinha, carne de charque e rapadura dispostas em uma composição que evoca tanto jardins japoneses quanto práticas rituais de oferenda. O trabalho estabelece um diálogo entre tradição pictórica, cultura alimentar e religiosidade.
Outro destaque é “Peão”, instalação em que uma panela de pressão gira continuamente sobre o próprio eixo, evocando simultaneamente o movimento do pião e o giro do relógio. A obra sugere uma reflexão sobre o tempo da comida, a espera e a urgência da fome, ideia frequentemente associada à frase do sociólogo Herbert de Souza: “quem tem fome, tem pressa”. O trabalho dialoga formalmente com as obras da série “Ventana”, como Coivara, Moenda, Amanho, Maniva e Komorebi, nas quais estruturas circulares funcionam como uma espécie de partitura visual. Nesses trabalhos, o círculo aparece como forma simbólica ligada ao ciclo, seja do preparo do alimento, do trabalho manual ou do tempo, sugerindo também um campo gráfico aberto a múltiplas interpretações.
Ao reunir referências que atravessam diferentes campos da cultura e da experiência cotidiana, “Manejo” propõe uma reflexão sobre formas de conhecimento produzidas no dia a dia e transmitidas pela experiência. Nas obras de Mano Penalva, o gesto manual, o improviso e a sabedoria prática tornam-se ferramentas para pensar sistemas de valor, modos de vida e processos culturais no Brasil. Ao mesmo tempo, o artista mobiliza elementos recorrentes da geometria, como o círculo, a repetição e a organização modular, aproximando práticas populares e cultura material de debates mais amplos da arte contemporânea.
Serviço
Manejo – Mano Penalva
Texto: Renato Menezes
Abertura: 26.03 | 19h
Período da exposição: 26.03 – 09.05.2026
Visitação: de terça a sexta, das 11h-19h; sábados, das 11h-17h
Portas Vilaseca – Rua Dona Mariana, 137, casa 2 – Botafogo, Rio de Janeiro
Entrada gratuita
Nara Roesler Rio de Janeiro tem o prazer de convidar para exposição “Um rio em mim”, com trabalhos inéditos, criados para o evento, pela artista Manoela Medeiros, conhecida por seu processo de escavação na pintura. Vivendo desde 2012 durante longos períodos na França onde tem consolidado sua carreira junto a outros jovens artistas, Manoela Medeiros mora no Rio de Janeiro, onde também tem seu ateliê. Sua relação com a França teve início em Paris, para onde foi cursar a École des Beaux Arts, tendo retornado repetidas vezes à capital francesapara participar de residências artísticas, como a da Cité des Arts, em 2019. Desde 2021 fica também baseada em Marselha, quando foi selecionada para uma bolsa oferecida pela prefeitura da cidade. No ano passado, fez uma individual na Palo Gallery, em Nova York, que ganhou elogiosa crítica na prestigiosa revista Artforum.
“Um rio em mim” é a primeira mostra individual da artista na Nara Roesler Rio de Janeiro, e suas mais recentes coletivas na cidade foram como “Rasura”, com curadoria de Victor Gorgulho, também na Nara Roesler Rio de Janeiro, em 2026; “Hábito-habitante”, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em 2021, e “Superfícies sensíveis”, na Caixa Cultural, em 2018.
Para Manoela Medeiros, tanto as paredes como as suas pinturas são como um “repositório de sedimentos arquitetônicos”. Parte de seu gesto consiste em subtrair camadas sobrepostas, criando composições “a partir da retirada de material que antes cobria a superfície da obra”. “A arqueologia não é vista como um tema, mas como um método de trabalho”, explica. A artista escava as superfícies de suas pinturas – e muitas vezes também as paredes do espaço expositivo –, “revelando as camadas de cores e materiais utilizados, recobertos e, assim, esquecidos ao longo do tempo”. Manoela Medeiros opera em um “espaço liminar entre a construção e a destruição com um gesto que beira o de um pintor-pedreiro-arqueólogo”.
“As obras são marcadas por imperfeições, desgastes e descontinuidades”, diz. Do gesto brutal e eminentemente físico/corpóreo emergem formas sensíveis e delicadas que lembram elementos naturais como plantas, folhas, com cores mais pronunciadas, outras já trazem o caráter mais abstrato da matéria desbotada e rachada.
Manoela Medeiros ressalta que nesta mostra na Nara Roesler Rio de Janeiro “foi a primeira vez em que o processo de criação aconteceu de forma bastante orgânica e livre”. “Dessa vez,foi o processo no ateliê que ditou mais as obras da exposição. Fui fazendo livremente, principalmente pinturas escavadas, e a partir delas formando um conjunto e sua conversa”.Os trabalhos que estarão em “Um rio em mim”terão três formatos: 150 x 120 cm: 130 x160cm, e 50 x 70 cm.Ela acrescenta que provavelmente irá decidir definitivamente quais obras irão ou não entrar no espaçosomente durante a montagem da exposição. “Busco trabalhar de forma mais intuitiva e aberta”, afirma.
LIMIAR ENTRE NATUREZA E CULTURA
Manoela Medeiros diz que seu trabalho “está em um limiar entre natureza e cultura”. “O que me interessa não é exatamente a arquitetura em si, mas o entorno, onde as coisas estão inseridas. Então, seja a arquitetura do espaço expositivo onde realizo trabalhos site specifics [feitos para o local], ou uma ruína abandonada, local onde coleto fragmentos de paredes – matéria-prima essa que é utilizada em trabalhos –, o ambiente onde sujeito e coisas se encontram e as relações que são tecidas entre eles são o que me interessam”.
Sua pintura feita do mesmo material arquitetônico da parede traz de forma quase-escultórica imagens de elementos naturais onde ela salienta que “a natureza surgiu em sua pesquisa nessa dualidade que é a ruína”. “Uma arquitetura construída e ao mesmo tempo uma arquitetura destruída, que é pouco a pouco invadida e devolvida à natureza. Essa espécie de suspensão, esse lugar entre duas coisas, ou não-lugar, que na verdade nada mais é do que um ateliê vivo, é o que me interessa”.
Em seu processo criativo, a artista comenta: “No ateliê procuro não antecipar o que irei trabalhar. As decisões acontecem de forma livre e no presente. Nunca sei onde uma pintura vai me levar, pois não costumo trabalhar com esboços prévios. Cada camada é uma camada de decisão daquele instante. O que rege muitas vezes é a preferência por alguma paleta ou tonalidade. Por exemplo, tenho trabalhado principalmente em uma paleta um pouco mais lavada e clara”.
A recente maternidade influenciou principalmente no tempo dedicado ao trabalho e em estar cada vez mais aberta a espontaneidade, mas ela conta que sua expectativa com esta exposição “é a de continuar experimentando de forma livre”.
SOBRE MANOELA MEDEIROS
Em seu trabalho, Manoela Medeiros (1991, Rio de Janeiro) articula uma abordagem da pintura que ultrapassa a especificidade de seu próprio meio, utilizando recursos da escultura, da performance e da instalação. Nessa perspectiva híbrida do pictórico, Medeiros interroga os meios artísticos além de seus formatos convencionais, onde pinturas e instalações in situ servem para explorar as relações entre espaço, tempo e a corporeidade da arte e do espectador.
Intervindo muitas vezes de maneira direta nos espaços expositivos, Medeiros concebe suas obras a partir de detalhes do lugar, sejam eles materiais, elementos estruturais ou até mesmo sua relação com a iluminação, natural e artificial. Sua prática introduz no espaço uma organicidade ao expor suas entranhas, ou estruturas, fazendo da arquitetura não apenas uma estrutura, mas um corpo específico em si mesmo na experiência da arte.
Através de procedimentos arqueológicos, Medeiros torna visível aquilo que muitas vezes subjaz, nutrindo-se da ideia de ruína, um índice espacial da passagem do tempo. A artista escava as superfícies, como as paredes do espaço expositivo, para trazer à tona as diferentes cores e materiais que ali foram aplicados e que permaneciam esquecidos. Desse modo, Medeiros visa refundar nossa experiência temporal ao expor, simultaneamente, suas sucessivas camadas, cada qual portadora da memória do momento em que foi aplicada, deixando-as coexistir e interpenetrar-se. Medeiros opera entre a construção e a destruição, mostrando sua complementaridade, mais do que seu antagonismo.
Manoela Medeiros vive e trabalha no Rio de Janeiro e em Marselha. Estudou na École Des Beaux-Arts, em Paris, e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Exposições individuais incluem: “Tropical Still life” na Palo, New York (2025), “Comment naissent les formes”, Double V, Marselha, Franca (2025) “O carnaval da substância”, naNara Roesler (2022), São Paulo; “Concerto a céu aberto”, na Kubik (2020), Portugal; “L’être dissout dans le monde”, na Chloé Salgado (2019), em Paris; “Poeira varrida”, na Fortes D’Aloia & Gabriel (2017), em São Paulo. Entre exposições coletivas encontram-se: “Rasura”, com curadoria de Victor Gorgulho (2026), Afirmacao, La Fab, Paris (2023), “Arqueologias no presente”, na Nara Roesler (2021), em São Paulo; “Recyclage / Surcyclage”, na Fondation Villa Datris (2020), na L’Isle-sur-la-Sorgue, França; “Reservoir”, no 019 (2020), em Ghent, Bélgica; “Vivemos na melhor cidade da América do Sul”, na Fundação Iberê Camargo (FIC) (2018), em Porto Alegre; “Espaces témoins”, na Praz Delavallade (2018), em Paris; 67ème Prix Jeune Création, Thaddaeus Ropac (2017), em Paris, França; 62ème Salon Montrouge (2017), em Paris; “In Between”, na Bergamin & Gomide (2016), em São Paulo; 11º Abre Alas, A Gentil Carioca, (2015), no Rio de Janeiro, entre outras.
SOBRE NARA ROESLER
Nara Roesler organizou sua primeira exposição de arte contemporânea em 1976 em Recife, em sua galeria, que se chamava Gatsby. Em 1986, mudou-se para São Paulo, onde integrou a Montesanti Galleria até 1989, quando o espaço passou a se chamar Montesanti Roesler. Em 1993, ganha o nome Nara Roesler. Atualmente, Nara Roesler é uma das maiores galerias do Brasil, reconhecida por desempenhar um papel fundamental na promoção e internacionalização de seus mais de 50 artistas. Com sede em São Paulo, Nara Roesler expandiu sua atuação para o Rio de Janeiro em 2014, e em 2015, tornou-se a primeira galeria brasileira a ter um espaço no exterior, ao inaugurar uma unidade em Nova York, reforçando seu compromisso com a difusão da arte nacional no cenário global.
Com o objetivo de fomentar consistentemente a prática curatorial e a pesquisa crítica, criou, em 2002, o Roesler Hotel, um programa que promoveu o intercâmbio entre curadores e artistas estrangeiros e brasileiros. Em 2011, foi a primeira galeria de arte contemporânea a criar uma editora, a Nara Roesler Books, que já publicou mais de 30 títulos.
Ao longo de sua trajetória, a Nara Roesler tem contribuído significativamente para o desenvolvimento das carreiras de seus artistas, oferecendo suporte contínuo e plataformas de destaque para a apresentação de seus trabalhos, incluindo-os em importantes instituições, bem como em relevantes coleções privadas, tanto no Brasil quanto no exterior. Seu programa inclui nomes consagrados, como Abraham Palatnik, Amelia Toledo, Antonio Dias, Artur Lescher, Daniel Buren, Heinz Mack, Julio Le Parc, Lucia Koch, Tomie Ohtake, Vik Muniz, e uma nova geração de artistas reconhecidos, como André Griffo, Bruno Dunley, Jaime Lauriano, Jonathas de Andrade e JR.
Serviço
Exposição “Manoela Medeiros – “Um rio em mim”
Até: 9 de maio de 2026
Entrada gratuita
Nara Roesler
Rua Redentor, 241, Ipanema, Rio de Janeiro, CEP 22421-030
Segunda a sexta, das 10h às 18h
Sábado, das 11h às 15h
A cantora carioca Andréia Pedroso, intérprete da MPB e da Bossa Nova, apresenta o show CHEIA DE BOSSA, numa edição especial em homenagem a Edu Lobo, no próximo dia 18 de abril (sábado), no Little Club/Beco das Garrafas, berço da Bossa Nova e palco de muitas histórias de nossa cultura musical.
Para esta edição “Edulobianas”, Andreia estará acompanhada por Henrique Ayres (violão), Zé Luiz Maia (baixo) e Marcio Bahia (bateria).
Sobre Andreia Pedroso
Cantora carioca, intérprete, letrista e compositora da MPB. Mestre em Educação Musical pela Escola de Música da UFRJ, licenciada em Educação Artística pela Universidade Metodista/ BENNETT, no Rio de Janeiro. Curso de Letras Português-Literaturas pela Faculdade de Letras da UFRJ (incompleto). Curadora e Preparadora vocal no projeto PreparaVoz – Oficina de Canto – realizada no Centro da Música Carioca Artur da Távola/ SMC (2019-2021), do Voz em Canto Oficina de Canto – realizada no Atelier Geraldo Aguiar (2023)e Preparadora vocal da bateria TIM e das Oficinas de Canto da COART/ UERJ (2001-2003).
Levantamento do Data Rio aponta que 8.195 pessoas vivem nas ruas da cidade
A primeira revista de poesia produzida por pessoas em situação de rua no Brasil será lançada no Rio de Janeiro com a exposição “Da Calçada”. A iniciativa é da Imprensa da Cidade, em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social. Neste fim de semana, nos dias 11 e 12, o Parque Glória Maria, em Santa Teresa, será palco de uma programação voltada à cultura, arte e acolhimento. A distribuição das revistas será gratuita, assim como a entrada no evento.
Presidente da Imprensa da Cidade do Rio de Janeiro, Pedro Geromilich, conhecido como Pedro do Livro, destaca o sucesso do projeto.
“Essa é a primeira revista de poesias escrita por pessoas em situação de rua, um trabalho incrível que foi conduzido pela ex Secretária Martha Rocha e pela atuação de Leo Motta nas oficinas. É um legado de assistência que reflete a gestão Eduardo Cavaliere, à frente da Prefeitura do Rio”.
Leo Motta, de 44 anos, palestrante e escritor que já viveu em situação de rua, ressalta que a arte floresce mesmo nos contextos mais invisibilizados. De acordo com ele, a revista nasceu a partir de 41 oficinas realizadas com cerca de 640 participantes em situação de vulnerabilidade social.
“Os 46 poemas foram escritos por pessoas acolhidas pela Secretaria de Assistência Social. A ideia é ampliar cada vez mais esse projeto que transforma vidas. Eu mesmo vivi nas ruas, e foi a poesia que me permitiu escrever três livros e mudar minha trajetória”, afirmou.
A programação contará com a presença dos autores e será aberta ao público. No dia 12, o encerramento será marcado pelo Sarau Poético Marquises, quando os participantes apresentarão textos que traduzem resistência, expressão e humanidade. A proposta reforça que a poesia não tem fronteiras: nasce na rua, ganha voz nas pessoas e encontra sentido em cada olhar atento.
A compreensão da beleza como experiência cotidiana atravessa a trajetória de Eva Klabin e estrutura a exposição “Beleza habitada: Eva Klabin, moda e memórias”, que abre o calendário de 2026 da Casa Museu Eva Klabin, no Rio de Janeiro. A mostra propõe uma leitura integrada entre arte, moda, mobiliário, objetos do cotidiano e vida social. Com entrada gratuita, a exposição permanece até 24 de maio. A visitação acontece de quarta a domingo, das 14h às 18h.
Com curadoria de Helena Severo e Brunno Almeida Maia, e expografia de Leandro Leão, a exposição apresenta, pela primeira vez ao público, um amplo conjunto de peças do acervo pessoal de Eva Klabin — entre roupas, acessórios, objetos íntimos e documentos — articulado às obras de arte da coleção permanente da Casa. Roupas, chapéus, sapatos, luvas, cartas, convites, menus, listas de convidados, livros de ouro, recortes de imprensa e registros sonoros de amigos e familiares convivem nos ambientes da residência, reafirmando a moda como linguagem artística e parte constitutiva de uma experiência estética moderna.
A mostra é organizada em cinco eixos curatoriais, que articulam colecionismo, vida social, cultura e moda como dimensões sempre presentes na trajetória de Eva Klabin. O eixo “Afinidades sensíveis” parte da herança modernista do século XX e apresenta a coleção como uma constelação de formas, materiais e linguagens — da arquitetura e do mobiliário às vestimentas, louças e obras de arte — relacionadas por aproximações formais, cromáticas e sensíveis, afirmando a moda como elemento ativo desse campo estético integrado.
A casa surge como espaço de encontros, trocas e diplomacia cultural em “Modos de existir: Eva Klabin e o seu tempo”. O núcleo destaca episódios emblemáticos da vida social da colecionadora, como o jantar oferecido ao banqueiro e filantropo David Rockefeller, na década de 1970, cuja ambiência é recriada a partir de documentos, pratarias, louças e arranjos concebidos por Roberto Burle Marx. O eixo aborda ainda o cotidiano íntimo de Eva, seus hábitos culturais, a realização de eventos musicais em sua residência e as viagens de formação realizadas ao lado de sua irmã, Ema Klabin.
O eixo “Modos de colecionar” apresenta a trajetória de Eva Klabin como colecionadora ao longo de mais de quatro décadas, desde as primeiras aquisições realizadas em 1947, com Pietro Maria Bardi, até as últimas peças adquiridas antes de seu falecimento. O conjunto reúne obras e objetos de diferentes períodos e geografias, propondo uma leitura ampliada da história da arte, do Antigo Egito à arte moderna. A coleção de indumentárias integra esse núcleo como parte do mesmo gesto colecionador, afirmando um guarda-roupa vívido, coerente e sensível.
Em “A linguagem secreta dos objetos”, o foco recai sobre fragmentos da cultura material que expressam memória, subjetividade e formação identitária. Objetos pessoais como chapéus, luvas, sapatos, cadernetas, diários, documentos e correspondências revelam gestos, hábitos e modos de viver no mundo. Entre os destaques estão criações de nomes como Pierre Cardin, Chanel, Salvatore Ferragamo e Charles Jourdan, além de peças de chapelaria assinadas por Rose Valois e Gilbert Orcel, cujas obras integram também acervos internacionais.
Já o eixo “O visível, o invisível: a moda como arte” afirma a moda como linguagem artística e campo de criação. Essas criações, associadas à modernidade do século XX, convivem com um núcleo especialmente dedicado à modista carioca Zulnie David, principal responsável pelas roupas de Eva Klabin entre as décadas de 1940 e 1980. Christian Dior, Coco Chanel, Jean Patou e Marie Martine também figuram entre os nomes que estruturam o eixo. Ao evidenciar sua produção e colocá-la em diálogo com a alta-costura internacional, a exposição propõe uma revisão crítica da história da moda no Brasil, problematizando processos de visibilidade e apagamento histórico e reafirmando a moda como prática artística.
O percurso expositivo reúne obras da coleção permanente da Casa Museu Eva Klabin, peças emprestadas de outros acervos, fotografias de arquivo, indumentárias, objetos pessoais e ampla documentação histórica. Ao todo, são apresentados mais de 130 itens de moda e acessórios, articulados a cartas, convites, menus, listas de convidados, livros de ouro, recortes de imprensa e materiais audiovisuais com depoimentos de amigos e familiares, ampliando as camadas de leitura sobre a trajetória de Eva Klabin.
Alinhada ao conceito de resíduo zero, a exposição prevê a doação dos tecidos para instituições de ensino de moda e o reaproveitamento das demais estruturas em futuras iniciativas da Casa Museu Eva Klabin. “Beleza habitada: Eva Klabin, moda e memórias” conta ainda com programação educativa, cursos, palestras e bate-papos pensados por Simone Ckless, estilista e fundadora do Laboratório Carioca de Moda, além de workshops, apresentações musicais e a publicação de catálogo digital.
SERVIÇO “Beleza Habitada: Eva Klabin, moda e memórias”
Visitação: 31/01 a 24/05 – Quarta a domingo, das 14h às 18h
Local: Casa Museu Eva Klabin (Av. Epitácio Pessoa, nº 2480 – Lagoa Rodrigo de Freitas) – Rio de Janeiro – RJ
Entrada gratuita
Classificação: Livre
Até dia 3 de maio, permanece em cartaz no Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro a coletiva Espaçotempo, com curadoria de Isabel Sanson Portella, membro do Comitê de Indicação PIPA 2024. Propondo uma reflexão sobre as múltiplas percepções do tempo a partir de experiências subjetivas, memórias e atravessamentos íntimos, a mostra reúne 34 artistas contemporâneos.
Inspirada no poema O mínimo do máximo, de Paulo Leminski (1944–1989), a exposição articula questões que transitam entre o individual e o coletivo, entre o real e o imaginado, deslocando a ideia de tempo de uma leitura linear e cronológica.
“Espaçotempo nasce do desejo de pensar o tempo para além da cronologia. Interessa menos a sequência e mais a experiência, aquilo que permanece, retorna ou se transforma na relação entre memória, corpo e imaginação”, afirma a curadora. As obras apresentadas percorrem uma ampla variedade de suportes e linguagens, como pintura, desenho, escultura, vídeo, ação interativa, tear, serigrafia, fotografia, gravura, bordado e objeto, evidenciando a diversidade de pesquisas e procedimentos que atravessam a exposição.
Com: Ana Carolina Videira, Ana Herter, Ana Zveibil, Anna Bella Geiger, Antonio Bokel, Aruane Garzedin, Ashley Hamilton, Breno Bulus, Cláudia Lyrio, Esther Bonder, Fernanda Sattamini, Flavia Fabbriziani, Giba Gomes, Gláucia Crispino, Heloísa Madragoa, Jaime Acioli, Liane Roditi, Manoel Novello, Manu Gomez, Maristela Ribeiro, Marlene Stamm, Michelle Rosset, Mônica Pougy, Nathan Braga, Panmela Castro, Patrizia D’Angello, Pedro Carneiro, Raul Mourão, Renata Adler, Stella Mariz, Vicente de Mello e Aldonis Nino, Virgínia Di Lauro e Yoko Nishio.
Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro
Est. Santa Marinha, s/nº – Gávea, Rio de Janeiro – RJ
De terça a domingo, das 9h às 16h
Série de desenhos sintetizam a poética da artista, onde a cor predomina em tons cítricos e solares
A Maneco Müller : Multiplo Galeria, no Leblon, inaugurou em 24 de março, terça-feira, a exposição individual “Tremer, tremer, é sempre assim”, de Gabriela Machado. Com quatro décadas de trajetória, a pintora apresenta uma série inédita de desenhos em tinta acrílica sobre papel, trabalhos que condensam a maturidade de sua pesquisa criativa. São doze obras, numa seleção que reúne o melhor da produção recente da artista carioca, que se destaca pelo uso singular da cor em composições pulsantes, cheias de luz e movimento. O trabalho de Gabriela Machado vem de um do desejo de transformar em pintura aquilo que a surpreende na paisagem do dia a dia. O texto crítico é assinado por Pedro Duarte e a mostra pode ser visitada até 15 de maio, com entrada franca.
Gabriela Machado pinta como quem escreve um diário, registrando em cor e gesto o que lhe salta aos olhos. Fragmentos da paisagem cotidiana, captados pela percepção aguçada e sensível da artista, ressurgem como campos de cor e gesto. Os traços são soltos, vigorosos, inesperados. A paleta é cítrica, luminosa, intensa. Sua pintura nasce de um diálogo do corpo com os sentidos, e não de uma obediência à forma. A inspiração pode ser um galho pendurado, o movimento da água do mar – ela também é nadadora e surfista — que, no instante do pintar, se transformam e se reconfiguram através da massa pictórica. “É um fazer que nasce na visão e passa pela epiderme. É um processo corpóreo”, explica ela, que possui obras em coleções prestigiadas, como as de Gilberto Chateaubriand e do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro.
Produzida em 2025, a série reúne dez desenhos no formato de 75 x 55 cm, em composições de tons sóbrios e elegantes. As pinturas em grande escala (200 x 152 cm) contrastam, com uma paleta de cores fortes, ácidas e pulsantes. A escolha das obras de alguma forma sintetiza o processo de trabalho da artista. “Em geral, começo no desenho em papel, em pequeno formato. Faço e refaço várias vezes a mesma imagem indefinidas vezes. Quando o exercício em formato reduzido se esgota, parto para as grandes dimensões, sobre papel ou tela de linho”, conta a artista. “O trabalho de Gabriela se desenvolve através do processo de rever sua própria pintura, de se debruçar novamente pelo que já fez, livre de certezas, sem medo do que vai aparecer. Com isso ela é capaz de alcançar lugares únicos, construindo uma obra de muitas surpresas e frescor”, explica Maneco Müller, sócio da galeria. “Acompanhamos a trajetória dela há mais de trinta anos. É uma produção de muita coerência e diversidade, que temos a alegria de apresentar pela segunda vez numa individual”, afirma Stella Ramos, que dirige a galeria ao lado de Maneco.
GABRIELA MACHADO
Nasceu em Santa Catarina, em 1960. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Santa Úrsula, 1984. Estudou gravura, pintura, desenho e teoria da arte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Rio de Janeiro, 1987-1992). Frequentou cursos ministrados por Paulo Venâncio Filho, Paulo Sérgio e Ronaldo Brito. Foi vencedora do Prêmio de Artes Plásticas FUNARTE Marcantonio Vilaça (2009). Inaugurou o espaço da Caixa Cultural de São Paulo com a exposição Doida Disciplina (2009), com curadoria de Ronaldo Brito após realizar a mesma exposição na Caixa Cultural do Rio de Janeiro e lançar um livro homônimo (Doida Disciplina – Editora Aeroplano, Rio de Janeiro). Em 2008, fez uma individual na Galeria 3 +1 em Lisboa, Portugal, e foi contemplada com o prêmio Marcantonio Vilaça em aquisição coletiva da Fundação Ecco (Brasília). Ainda em 2008 lançou um livro intitulado Gabriela Machado (Editora Dardo, Santiago de Compostela, Espanha). Entre as suas exposições individuais ocorridas em anos anteriores destacam-se: Desenhos, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, com texto de Paulo Venâncio (2002); Centro Universitário Maria Antônia, texto de Afonso Luz (São Paulo, 2002); e Neuhoff Gallery de Nova York, com texto de Robert Morgan (2003). Podemos citar ainda: Largo das Artes, juntamente com o escultor José Spaniol (Rio de Janeiro, 2007), Pinturas, na Galeria Virgílio; Pinturas, H.A.P. Galeria, texto Ronaldo Brito (Rio de Janeiro, 2005); H.A.P. Galeria, texto Paulo Sergio Duarte (Rio de Janeiro, 2002); Projeto Macunaíma, na Funarte (Rio de Janeiro,1992). Teve trabalhos representados em importantes feiras internacionais, com destaque para Valencia Art (2009), Arte Lisboa (2009, 2008 e 2006) e Pinta Art Fair em Nova York (2008 e 2009). Também em 2008 expôs com grande repercussão e reconhecimento na ARCO’08 – Feira de Arte Contemporânea em Madrid (2008), onde ocupou por inteiro o stand da H.A.P. Galeria. Outras participações em feiras e exposições coletivas incluem outros anos na ARCO Madrid (2001/1998); SP Arte (São Paulo, 2008/2007/2006/2005); Arquivo Geral (Rio de Janeiro, 2008/2006/2004); Art Chicago (Chicago, 2004); Art Cologne (Alemanha, 2003); San Francisco International Art Exposition (NY, 2002); Desenho Contemporâneo, Centro Cultural São Paulo e Caelum Gallery (NY, 2002); Novas Aquisições Coleção Gilberto Chateaubriand, MAM (Rio de Janeiro, 1998); Paço Imperial (Rio de Janeiro, 1998); Mostra América (1995); 1ª Bienal Nacional da Gravura (São Paulo, 1994); Centro Cultural São Paulo (1993); X Bienal do Desenho de Curitiba (1991); Projeto Macunaíma, na Funarte (Rio de Janeiro, 1992/1990). Sua obra está presente em importantes coleções brasileiras, como as de Gilberto Chateaubriand, José Mindlin, George Kornis, João Carlos Figueredo Ferraz, Charles Cosac, Fundação Castro Maya, Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, Centro Cultural Cândido Mendes e Fundação Catarinense de Cultura (MASC), Fundação ECCO e Museu de Arte da Pampulha. Fora do país, além da exposição lisboeta em 2008, em 2002 a Neuhoff Gallery de Nova York inseriu o trabalho da artista em duas coletivas – uma delas, The Gesture, junto com conceituados pintores americanos como Frank Stella e Franz Kline. Já apresentou seus trabalhos em Bergen, na Noruega, a convite da curadora Mallin Barth.
MANECO MÜLLER : MULTIPLO GALERIA
Inaugurada em 2010, a MMM Galeria tornou-se ao longo do tempo mais do que uma galeria, onde as obras ficam expostas para a apreciação do público. É um ponto de encontro de artistas, estudiosos, colecionadores e apreciadores da arte contemporânea. Movida pelo desejo de oferecer ao público formas diferentes se relacionar com a obra de arte, cada exposição montada é fruto de um trabalho dedicado, cuidadoso e apaixonado, que busca sempre desafiar o olhar do visitante, despertar a reflexão e incentivar a fruição estética. Ao longo dos anos, a galeria se consolidou como um espaço que investe no lançamento de edições exclusivas e cultiva preciosidades. Aqui, artistas consagrados e novos talentos oferecem o melhor de sua criação. Com múltiplos, obras em papel, objetos e pinturas, além de projetos especiais, de importantes artistas brasileiros e estrangeiros, a proposta é não só enriquecer coleções já estruturadas, como atrair também não especialistas e despertar novos colecionadores. Entre os momentos mais emblemáticos da galeria estão as exposições de Eduardo Sued (2025), Waltercio Caldas (2012 e 2022), José Rezende (2022), Carlos Vergara (2022), José Antonio Dias (2013), Pedro Cabrita Reis (2014), Cildo Meireles (2019) e Roberto Magalhães (2019). Ajudaram também a construir a história da galeria nomes como Amália Giacomini, Ana Calzavara, Beth Jobim, Celia Euvaldo, José Bechara, Luiz Zerbini, entre outros. Na trajetória da galeria, se destacam também performances, instalações, mostras e oficinas que se expandiram para outros espaços e manifestações artísticas: Chelpa Ferro (Teatro Tom Jobim, 2012); José Pedro Croft (galeria e terreiro do Paço Imperial, 2015), pintura mural de Célia Euvaldo (Oficina Mul.ti.plo Videiras, 2017), exposição e peça de teatro no centenário de Lygia Clark (Fazenda Cachoeira, 2019, Itaipava), O Real Resiste (intervenção nas ruas do Rio de Janeiro, 2020) etc.
SERVIÇO
Exposição de arte contemporânea
Título: Tremer, tremer, é sempre assim
Artista: Gabriela Machado
Local: Maneco Müller : Multiplo Galeria (MMM Galeria)
End.: Rua Dias Ferreira, 417/206 – Leblon – Rio de Janeiro – CEP 22431-050
Data: De 24 de março, terça-feira, abertura às 18h, até 15 de maio de 2026
Visitação: De segunda a sexta-feira, das 10h às 18h30 (sábados, sob agendamento)
Entrada franca
Às sexta-feiras ganham vida no Terraço Notiê by Priceless com uma programação especial na Sala de Música dedicada à discotecagem em vinil. Todas as semanas, a partir das 19h, um artista convidado se apresenta ao lado do curador da casa, Meu Caro Vinho, conduzindo a trilha sonora da noite.
DJ Clebersom, conhecido pela curadoria de sonoridades pretas e urbanas, será recebido para comandar o som do espaço na próxima edição, no dia 10/04, trazendo uma imersão no samba rock e celebrando a cadência desse ritmo clássico das pistas.
A apresentação acontece na Sala de Música, espaço concebido para momentos mais intimistas. Inspirada nos listening bars japoneses, ela é equipada para uma escuta de alta definição e pode funcionar de forma independente ou integrada ao bar, permitindo diferentes formatos de programação cultural e interação com o público.
Inaugurado em 2021, o Terraço Notiê by Priceless foi concebido como um espaço dedicado à gastronomia e à programação cultural. Em junho de 2025, a operação atual reinaugurou o local, consolidando iniciativas anteriores, Abaru e Notiê by Priceless, sob a marca Terraço Notiê by Priceless.
Além da programação regular, o complexo abriga eventos de diferentes formatos e dimensões, distribuídos em ambientes moduláveis. Entre eles estão salas com foyer e três espaços integráveis que totalizam 350 m², o Terraço Equivalente, também com 350 m² e vista para o Centro Histórico, o bar e a Sala de Música, que podem operar de forma independente ou conectada, além do Mirante voltado ao Centro.
Serviço:
Terraço Notiê by Priceless
Data: Todas as sextas-feiras
Horário: 19h
Local: Sala de Música
Instagram: @terraconotie
Link: instagram.com/terraconotie
Endereço: Rua Formosa, 157 – Centro Histórico (acesso pelo estacionamento do Shopping Light)
Horários de funcionamento
Bar, restaurante e terraço
• Segunda: 12h às 15h30
• Terça e quarta: 12h às 23h
• Quinta a sábado: 12h às 02h
• Domingo: 12h30 às 18h
Sala de música
• Quarta a sábado, a partir das 19h
Reservas
• Telefone: (+55) 11 5043-3822
• WhatsApp: (+55) 11 92044-5601 (somente mensagens)
Unidas pela potência da arte e por laços de amizade, Anna Bella Geiger e Raquel Saliba ocupam duas salas do Museu Histórico da Cidade a partir de 1º de março, sob curadoria de Shannon Botelho. No segundo pavimento do casarão, a exposição conjunta “Avesso” propõe um campo de diálogo entre as obras de Geiger e as esculturas de Saliba, revelando camadas, contrastes e afinidades. No primeiro pavimento (térreo), Raquel apresenta a individual “Bashar: nós humanos” reunindo esculturas recentes em diferentes técnicas na cerâmica e instalações que ampliam sua investigação material e espacial.
“Bashar: nós humanos”
“No presente, marcado pela crença em uma subjetividade autossuficiente e pelo enfraquecimento das lógicas comunitárias, a obra de Raquel Saliba sinaliza um gesto de atenção ao que ainda nos constitui. Suas figuras não celebram o indivíduo isolado, mas evocam a condição compartilhada do existir. Bashar — que significa humanidade — nomeia este encontro de corpos que, feitos de barro, carregam a memória do tempo, das diferenças e da vida em comum. Entre nascimento e desgaste, permanência e transformação, as obras aqui expostas nos lembram que a humanidade é constituída, antes de tudo, pelas relações que estabelece e pelos vestígios sensíveis que lega à eternidade”. Shannon Botelho, 2026.
Cerâmica e bronze se transformam em instigantes peças escultóricas nas mãos de Raquel Saliba. Nascida em Itaúna, Minas Gerais, formada em Psicologia, a artista dedica-se exclusivamente à arte há 15 anos, movida por um fascínio singular por técnicas ancestrais e processos primordiais. Entre elas estão a queima Anagama — queima japonesa — e a Obvara, método de queima cerâmica originado no Leste Europeu no século XII, que consiste em retirar a peça incandescente do forno. Raquel também experimenta o uso de gás em fornos híbridos combinados com lenha. Em uma de suas séries mais recentes, deixou que a ação do mar oxidasse algumas peças, resultando em superfícies que alternam entre o reluzente e o rústico.
“Meu fascínio pelo figurativo e pela cerâmica vem da história do nosso (ante)passado. A cerâmica é um dos vestígios culturais utilizados pela arqueologia para reconstruir narrativas históricas anteriores à escrita”, afirma a artista.
Habitantes do imaginário de Raquel, seus seres — sem gênero definido — moldados em argila ou barro, podem atingir dois metros de altura.
Saiba mais sobre Raquel Saliba
Raquel Saliba já morou em diferentes partes do mundo, o que possibilitou que ela fizesse vários cursos e exposições como no Carrossel do Louvre (maio de 2018), por exemplo. Residindo atualmente no Rio de Janeiro, ela vem se dedicando cada vez mais às esculturas em cerâmica, bronze e outras matérias. Parte de sua formação artística: Curso Objeto e Poema 2025 e 2026 com Xico Chaves no Parque Lage; Colagem com Pedro Varela em 2024; O Processo Criativo com Charles Watson em 2020 no Parque Lage; Encontros e Reflexões, com Iole de Freitas, 2019, Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil; exposição coletiva A Cara do Rio (Centro Cultural dos Correios), 2018; curso Conversando sobre esculturas objeto etc. e tal com Joao Goldberg, Parque Lage, Rio de Janeiro, Brasil em 2016 e 2017; cursos de escultura e cerâmica no Morley College, Londres, Reino Unido 2014 e 2015; cursos de escultura no Heatherley School of Art, Londres, Reino Unido em 2015; workshop “O inconsciente na argila”, com Sandy Brown, Inglaterra, junho de 2015; cursos de Cerâmica e Escultura na UAL (University Arts of London), professor Timothy Harker, Londres, Reino Unido em 2013; Centro de Artes de Fremantle, Austrália Ocidental 2003.
“Avesso”
“Os trabalhos de Anna Bella Geiger apresentados em ‘Avesso’ foram realizados a partir dos anos 1960. Neles, a artista desloca a imagem de um campo compositivo para um campo orgânico, fazendo da superfície uma espécie de pele tensionada, onde cortes, cavidades e dobras insinuam um interior que insiste em emergir. Mais do que um gesto expressionista, trata-se de uma investigação estrutural da imagem: Geiger expõe o avesso, desestabiliza o plano e transforma a matéria em linguagem crítica. Ao afirmar uma poética centrada no corpo em um sistema historicamente regulado por narrativas masculinas de autonomia e universalidade, a artista tensiona os limites da imagem e inscreve, de modo não panfletário, uma presença feminina que reivindica espaço na redefinição da arte e de seus discursos.
Por sua vez, Raquel Saliba apresenta um conjunto de corpos femininos que discutem a condição da mulher não apenas no contexto das violências físicas, mas também nas formas de negação da individualidade e da plenitude do ser produzidas por uma lógica patriarcal e por agressões simbólicas naturalizadas. Corpos acéfalos, reduzidos a troncos, instauram um discurso contundente sobre a experiência feminina no contemporâneo: a supressão da identidade como mecanismo de controle. Uma obra de caráter instalativo sintetiza a narrativa: cabides sustentam troncos femininos como se fossem mercadorias expostas, evocando a objetificação do corpo da mulher — transformado em produto, disponível ao consumo. Contudo, nesses corpos aparentemente destituídos de identidade reside uma força latente: se denunciam a redução e as violências, também afirmam autonomia, beleza e potência expressiva”, diz Sannon Botelho.
De Anna Bella Geiger foram selecionadas gravuras em metal, telas em guache e nanquim sobre papel, obras em técnica mista, objetos escultóricos. O recorte é mapeado a partir da produção dos anos 1960 e chega a trabalhos mais recentes, explorando volume, textura e espaço.
Já Raquel Saiba expõe delicados torsos femininos em cerâmica, submetidos a diferentes técnicas de queima ou moldados com tecidos ou transformados pela ação do mar depois de algum períodos de submersão. Alguns estarão suspensos em um conjunto de instalações que flutuam no ambiente, presos por fios de metal a armações de ferro; outros, “protegidos” por redomas de vidro ou agrupados, ostentando medidas diversas.
“Para mim, como mulher, o feminino é forte. Está e estará sempre presente no meu trabalho. Como escultora, gostaria de abrir mais portas para outras mulheres, especialmente aquelas que vivem sob opressão, preconceito e diferentes formas de violência. A intimidação das mulheres ainda é muito grande, sobretudo entre as que lutam por independência e liberdade”, define Raquel Saliba.
Serviço
“Avesso” – exposição de Anna Bella Geiger e Raquel Saliba (2º pavimento)
“Bashar: nós humanos” – individual de Raquel Saliba (1º pavimento)
Curadoria: Shannon Botelho
Visitação: de 3 de março a 3 de maio de 2026
Local: Museu Histórico da Cidade
Endereço: Est. Santa Marinha, s/nº – Gávea, Rio de Janeiro
Funcionamento: de terça a domingo, das 9h às 16h
Após 48 anos de carreira na diplomacia, Marcos Duprat se dedica integralmente à pintura e apresenta sua nova exposição, “Matéria e Luz”, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. A mostra, que ficará em cartaz até o dia 3 de maio, reúne 32 obras que refletem suas experiências e a luz dos diversos lugares onde trabalhou, como Washington, Lima, e Tel Aviv.
Duprat, agora com 81 anos, dedica-se ao seu ateliê na zona sul, onde utiliza sua técnica de veladura para captar a luz e a difusão dos reflexos na água. “Uma tela pode me ocupar até dois meses de trabalho. Isso exige paciência, pois não consigo me submeter à pressa do mercado”, afirma o artista. Ele menciona que a atualidade imediatista contrasta com sua abordagem atemporal da arte.
Na varanda da Casa de Cultura, as obras se debruçam sobre a movimentada Avenida Vieira Souto, trazendo à tona sua série “Horizontes” (2025) e o díptico “Águas” (2023). Duprat reflete sobre como o mercado de arte brasileiro evoluiu, destacando uma época mais amigável, onde o convívio entre artistas era incentivado. “O ambiente era ótimo, todos se encontravam e trocavam ideias”, lembra.
Influências e Formação Artística
Entre os encontros marcantes na trajetória de Duprat está o Atelier Livre do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Ali, nos anos 60, teve aulas com mestres como Fayga Ostrower e Aluísio Carvão. Sua formação artística continuou em Washington, onde obteve um mestrado na American University, enquanto trabalhava na diplomacia. Uma das obras apresentadas na mostra, “Figura em interior” (1977), remete à sua primeira exposição na capital americana.
Duprat menciona que seus professores eram influenciados pelo movimento abstrato-expressionista, mas o encorajaram a seguir seu próprio caminho. “Eles me diziam para fazer o que achasse bom. Mesmo De Kooning, que era uma referência, trabalhava com modelo vivo. As linhas de tensão do corpo humano são fundamentais para o aprendizado. Criar uma figura em pé, por exemplo, é um grande desafio”, explica.
Um Último Homenagem a Antônio Cicero
Uma das figuras que marcou a vida de Duprat foi o poeta e compositor Antônio Cicero. O texto de apresentação da exposição, escrito por Cicero e adaptado para a mostra, serve como uma homenagem ao amigo, que faleceu em um procedimento de morte assistida na Suíça. “Falamos sobre trazer seu texto para a exposição como uma forma de manter sua presença viva aqui”, conta Duprat.
Ele relembra o momento em que conheceu Cicero em Washington, onde este fazia doutorado em filosofia. Duprat recorda da jovem Marina Lima, irmã de Cicero, que já mostrava talento e interesse pela música. “Antonio sempre foi uma pessoa lúcida, mesmo enfrentando problemas de saúde. O texto dele capta com precisão meu ‘mundo interior’, refletindo a introspecção que é crucial para a pintura”, revela.
Introspecção e Representação Artística
Duprat destaca que suas obras não carregam necessariamente uma tensão social ou ideológica. Para ele, a arte deve falar de forma humana e íntima. “O que faço é simples, não busca chocar à primeira vista. Cada um pode encontrar seu próprio significado nas minhas telas”, conclui. Assim, a exposição “Matéria e Luz” se apresenta não apenas como um recorte da trajetória de Duprat, mas como um convite à contemplação e à introspecção.